- Quer dizer então que você quer sair de casa? – perguntou meu
pai. Sua expressão era a mesma de todos
os dias: cansada, com os traços faciais realçados pelo suor misturado com a
graxa.
- Sim, pai... Qual é o problema? Já tenho 20 anos. – falei,
sentado na minha cadeira giratória, olhando meu pai com a expressão “O que de
anormal tem isso?”
Ele passou as mãos sobre os cabelos, que já começavam a
ficar grisalhos.
- Você tem ideia do que é sair de casa?
- Hey, não tem nada demais. Apenas quero ser independente.
Só isso.
- Independente,
independente! Você fala assim como se as coisas fossem simples! – Meu pai
sempre apertava os olhos quando ficava nervoso, ou algo parecido.
- Não vou saber se não são, se eu não tentar. – comecei a
roer as unhas. Exatamente o que papai fazia quando estava meio “to nem aí”.
- Vem cá, qual o porquê disso? Você tem seu estágio, tem sua
casa, sua namorada, sua família! Porque diabos largar tudo e ir se arriscar
numa cidade grande por causa de uma faculdade? – Meu pai não era o único a não
ver sentido nas minhas ideias. Ele só
era mais um de um fila imensa.
- Ah pai... Eu quero sair dessa mesmice... Sei lá, quero
conhecer pessoas novas, ver lugares, sentir outras vibes! Eu quero viver! O que
tem demais nisso?
Papai continuava com as mãos na cabeça, girando de um lado
pro outro.
- Filho, falar que quer independência é fácil, quando se tem
uma mãe que lava suas roupas e faz a sua comida, um pai que te dá dinheiro pra
você sair com a sua namorada! Você sabe como é a situação aqui em casa. Sabe
que tudo o que temos, foi duro pra conseguir! Eu ralo quase o dia todo naquela
oficina, pra botar o alimento na mesa!
- E você quer que eu
seja igual você, pai? – A minha pergunta poderia compreendida em várias
vertentes. Em uma, eu comparava meu pai
a um grão de ervilha. E em outra... Também.
- Filho... Eu tenho o maior orgulho de você. Você é um filho
que nunca me deu grandes trabalhos, como muitos que vejo por ai. Admiro o seu
talento, de fazer música, de cantar... Isso não é pra qualquer um! Olha meu
filho... Eu digo por mim... Quando eu tinha a sua idade, eu sonhava com isso
também, mas...
- Mas a minha namorada ainda não tá grávida, pai.
Então a onça que eu estava cutucando com a vara curta, veio
com tudo para cima de mim, tirando até o meu direito de resposta.
- Mas como ousa, seu moleque! Como consegue ser tão ingrato?
Eu tiro da minha boca pra lhe dar o que comer, moleque mimado!- De repente uma
vergonha me tomou a face. Meu pai simplesmente nunca tinha falado assim comigo.
Ele, vendo o peso das suas palavras,
tentou emendar. – Filho, eu torço por você, mas não posso te apoiar
nessa loucura. A vida vai muito além de uma lista de aprovados no vestibular,
garoto.
E ele ia me dar às costas, me deixando pensar no que eu há
tanto tempo tramava. Mas num impulso de coragem, soltei:
- Você tem razão, pai.
Ele então se virou e me encarou. Eu era uma cópia quase
idêntica do meu pai. Tanto fisicamente, quanto psicologicamente. Eu tinha 20
anos, ele 40. Eu gostava da música, meu pai também. Ele tinha a minha idade
quando eu acabei com o sonho dele, vindo ao mundo. Afinal, alguém tinha que me
sustentar e me dar um nome.
- A vida vai muito além da lista de aprovados no vestibular,
com certeza. Mas acredito que ela também não se resume numa oficina e numa
família.
O silêncio começou a reinar ali.
Seria meu pai uma prévia do meu futuro, ou seria eu um
recomeço à parte da vida dele?

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