domingo, 12 de fevereiro de 2012

O mendigo e o aprendiz

Ele não tinha nenhuma expectativa de vida.
Até que um dia pegou suas poucas economias, e comprou um violão.
Era um Giannini GCX15 Acústico, com entrada para amplificador.
Mas ele não sabia tocar nota alguma, só sabia desafinar o coitado. Porém, era persistente.
O violão agora era o seu único e melhor amigo. Saía as ruas, com o instrumento nas costas. Além de desafinar o Giannini, andar nas ruas sem nenhum objetivo específico era seu passatempo preferido.
Numa dessas caminhadas, começou a cair uma forte tempestade. Correu, até que avistou o barraco de um mendigo. Se aproximou, e o homem velho o abrigou.
Não falaram nada um ao outro. Nem sequer se olharam. Ficaram apenas contemplando a chuva cair, molhando os passantes e causando tumulto na cidade.
- É seu esse violão? - perguntou o mendigo. Ele aparentava ter mais de cinquenta anos. Usava roupas manchadas de terra, e um pequeno chapéu casual.
Ele balançou a cabeça afirmativamente para o velho homem.
- Me empreste ele um pouquinho. Faz tempo que não toco. - disse ele, pegando o instrumento do jovem rapaz, e o examinou. - Ele está meio desafinado. Posso afiná-lo?
O jovem rapaz novamente aprovou com a cabeça. O mendigo, com sua ousadia, começou a tocar uma canção antiga, e o rapaz ficou admirado com a habilidade que este tinha com o violão. Era de admirar-se. A música acabou, e logo em seguida o velho homem começou outra. E terminou essa, e começou outra, e assim em diante. Até que uma hora, parou, e devolveu o instrumento ao dono.
- A chuva já passou, meu rapaz. Aproveita que cessou, e pode ir.
- Me ensina a tocar? - disse o jovem moço.
- Eu nem sei tocar direito... - disse o mendigo, gargalhando. - Tirando essa vez de agora, a última vez que toquei foi há mais de 30 anos atrás, quando eu ainda tinha vida. - Qual é o seu nome?
- Eu não tenho nome. Não tenho família. Só tenho esse violão.
- Bom, sendo assim, vou dar-lhe um nome. Posso te chamar de Tom?
- Pode sim. - disse o rapaz, dando um sorriso de canto. - E qual é o seu nome?
- Pode me chamar de Viola.
Viola então ensinou o jovem a tocar, e aos poucos ele foi aprendendo as melodias. O velho era um tremendo artista, por onde andava, onde achasse uma moça bonita, lhe fazia um verso improvisado, e lhe dava uma rosa. Além de cantor, também era mágico.
Dali em diante, o jovem Tom era o companheiro de todas as horas do velho Viola, sempre tocando violão enquanto o artista declamava versos apaixonados para as moças que passavam na rua. E sem cobrar nada, um sorriso que elas lhe exibia, já era tudo.
E os amigos continuam a fazer a sua arte em todas as esquinas da cidade, despejando alegria nas pessoas e colorindo os ambientes em que passam.

Ilustração: Eduardo Souza
Twitter: @meus_planos

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