Um disparo entoou no espaço.
Logo voltou o silêncio da madrugada.
Na ruela deserta, ouvia-se passos apressados;
Toc toc, toc toc
Era o barulho dos sapatos de salto de Isabel
Descendo a ladeira, disfarçada, com óculos escuros e lenços deformando o rosto
Guardava um revólver apressadamente dentro da bolsa
Nos prédios, luzes acendiam nas janelas, assustadas, e logo apagavam, como em um pisca-pisca
Menos as da cobertura do prédio mais alto daquela rua.
Não demoraria para chamarem o poder civil para averiguar
A causa de tal disparo num bairro familiar
Isabel, moça graduada em Direito, agora não sabia como se defender
Da culpa que a torturava dentro da mente
Toc toc, toc toc
"Não tinha outra saída; fiz a coisa certa"
Logo à frente, a sirene de luzes vermelha e azul
Anunciavam a chegada dos heróis
"Não olhe, ande devagar, guarde o óculos e o lenço na bolsa", dizia para si mesma, e assim o fez.
Isabel, que não tinha base para tremer, arranjou uma quando os policiais desaceleraram o carro.
Toc... toc...
"Isso é hora de andar sozinha, princesa? Quer companhia?", disse um abaixando o vidro.
Sim, a idiotice revela os falsos heróis.
Logo ali, um ponto de táxi
Toc toc, toc, toc toc, toc toc toc
"Para o aeroporto, moço."
"Você está bem, moça? Como ir para o aeroporto sem bagagem?"
"Não gosto que me perguntem as coisas. Vamos logo."
E assim Isabel seguiu, contemplando o amanhecer da janela
Mas no seu castelo interior, ainda era madrugada.
"Chegamos. Deu R$ 28,00."
Naquela bolsa tinha coisa demais, menos a paz. E nessa procura pela carteira, o revólver cai no assoalho do carro.
Com a carteira na mão, Isabel apanha o revólver - herança de família - e o guarda apressadamente,
Mas não tão rápido quanto a percepção do motorista.
"Você não viu nada.", diz, e lhe entrega uma nota de cem reais, antes de sair do carro.
Toc toc toc toc toc
Não há mais tempo, é hora de fugir.
Mas não dá para fugir de si mesma, nem do ódio senão pelo perdão
Entre lençóis manchados de sangue jazia aquele homem,
Que ela confiou seu desordenado coração,
Suas carências profundas
E que acolhia às escondidas as carências de outra mulher.
Isabel chorava, com amargor
Pelo gosto do seu ato mortal
Contra aquele homem
Que nunca lhe pertenceu.
