sábado, 21 de janeiro de 2012

Oriundo

Tudo natural.
Como o voo de um pássaro, como uma estrela no céu.
Tudo belo, sem a necessidade de cobrança, mas de responsabilidade e humildade.
Tão simples, como um Sonho de Valsa, mas rico como um paraíso no meio do mundo.
Tão significativo quanto um SMS apaixonado no começo da manhã.
Tão inexplicável a ponto de me deixar acordado, sonhando sozinho pelo bem comum, pela paz.
Tão transformador como uma música num momento de deleite.
E é por ser tão natural que o deixa esplêndido, bonito de se ver e de se sentir.
É AMOR, você realmente faz coisas incapazes de serem criadas por nossa mísera mente.
Você realmente é remédio para a alma.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O mascarado

Houve um tempo em que eu fingi ser outra pessoa  nas minhas redes sociais.
Não me pergunte o porquê, talvez tenha sido a solidão, a falta de carinho, enfim, ser outra pessoa na rede me satisfazia. Era sempre adicionando pessoas, mantendo contatos, fazendo “laços”... Era convidado pra eventos, mas nunca recusava. Jamais. Depois emitia uma nota aos e-mails dizendo que aconteceu um imprevisto de última hora.
A minha foto da página inicial era a de um primo meu do interior, o Rogério, que não sabia nada de informática, trabalhava o dia todo numa fábrica de postes e estava repetindo a 6ª série pela décima vez. Tínhamos a mesma idade, e obviamente, ele era muito mais bonito que eu. E era o maior pegador da região onde morava.
Como conseguia as fotos? Bem, algumas vezes fazia umas visitas na casa dos meus tios, e aproveitava a ocasião, e roubava a imagem do pobre Rogério. Ele pensava que a internet era uma coisa de outro mundo, e pra convencê-lo a sair na fotografia, eu mostrava várias imagens de mulheres esbeltas, essas que a gente acha no Google, e salva. Ele ficava louco por aquelas beldades. Aí em casa, eu editava as fotos, para dar um “quê” na sua aparência.
Eu tinha vários amigos virtuais, e também tinha uma namorada virtual. Ela se chamava Alice. A gente conversava muito, a todo tempo, tínhamos sidos feitos um para o outro – na rede. Quer dizer... Eu fingia ser o cara perfeito pra ela. Para ela, eu gostava de sertanejo, era sarado, sabia surfar, lutava jiu-jítsu, tocava violão, e tinha muitos outros atrativos, além da minha aparente beleza. Todos os dias de manhã eu mandava alguma mensagem de amor para ela, e ela me respondia apaixonadamente. Mal sabia ela que estava mais perto de mim do que pensava. Morávamos na mesma cidade.
Um dia ela quis porque quis me conhecer pessoalmente. Eu inventava alguma desculpa, dizendo que não poderia ir, porque era longe, e teria outros compromissos. Alice se cansou dessas justificativas, e disse que se eu não fosse à cidade dela, nunca mais iria falar comigo. Eu tentei relutar, mas ela foi firme. Ela sempre dizia que estava se guardando pra mim, que não ficava com ninguém, e que eu era o cara da vida dela. Não tinha como recusar.
Certo, eu marquei um encontro. Lembrei então que o cara que ia se encontrar com Alice era eu, o Álvaro, e não o bonitão Rogério. Que enrascada eu tinha me metido... Mas achei injusto alimentar esperanças da moça, e decidi mostrar quem eu era. Não tentei me arrumar melhor, parecer bonito. Vesti-me como sempre me vestia, trajando calça jeans e camisa larga.
Tínhamos marcado numa lanchonete. Cheguei, e não havia sinal dela no local. Pedi um refrigerante, esperei por ela. Até que meia hora depois, Alice apareceu... Sem palavras pra descrevê-la. Ela estava absurdamente linda, de vestido, do qual nem lembro a estampa, só fiquei contemplando a beleza de suas curvas. Ela olhou em volta, não viu ninguém parecido com o garoto-sedução que ela tinha contato. Até que me deu coragem e gritei seu nome. Ela olhou pra mim, estranhando-me, naturalmente, pois não me conhecia. Encostei junto dela, e sussurrei.
- Eu sou o Rogério. O que surfa, luta jiu-jítsu, toca violão e ama sertanejo.
Ela passou os olhos em mim, e ficou um tanto surpresa. 
-Desculpa, deve estar havendo algum engano...
Fiquei tenso. Meu coração pulsava o dobro.  Como ela iria acreditar em mim? Não tinha a menor lógica, mas eu tinha que confessar.
-Eu sou o Rogério, o que você conversa todos os dias pela internet...
Ela me olhou com um olhar incrédulo.
-Olha, Alice... Não posso mais mentir... Na verdade, me passei por outra pessoa para te impressionar... Te investiguei, tentei descobrir do que você gosta... Aquele cara das fotos não sou eu, é um primo meu do interior... No começo era apenas um passatempo, mas depois eu fiquei acostumado a falar com você, desabafar...
-Não, isso não é possível! – disse ela, com lágrimas brotando nos olhos.
-Eu sei muito de você. Eu errei, mas eu estou aqui pra me desculpar, pra te falar a verdade...
-Quando eu nasci? – disse ela, me interrompendo.
-16 de maio de 1994.
-Qual o time de futebol que eu torço?
- Corinthians.
-O nome do meu cachorro?
-Bart. O nome da sua mãe é Zilda, a sua música preferida é “All Star”, do Nando Reis, e você só namorou um cara na vida, que se chama Cássio.
A medida que eu falei isso, cada informação correta era como se fosse um tapa na cara dela. A veia do seu rosto estava estufada, o rosto rubro, e cheio de lágrimas. Ela não se segurou, e deu-me uma bofetada.
- Seu cínico... Como teve coragem de fazer isso? Mentiroso, filho da mãe!
- Eu sou uma pessoa sozinha, Alice. Você apareceu pra me fazer companhia, é mais que uma amiga, cara, eu me apaixonei por você! Olha, eu não curto sertanejo, não surfo, não luto jiu-jítsu, não entendo nada de violão ou qualquer outro instrumento... E eu moro aqui na cidade, não moro no litoral...
A cada frase, mais era evidente a decepção nos seus olhos. Alice era sincera; se ela falou que estava se guardando pra mim, era verdade. Ela não suportava mentiras.
-E por que mentiu pra mim? Porque fingir ser outra pessoa, Rogério?
- É Álvaro, o meu nome... – outro tabefe, e de brinde, ela jogou o refrigerante do meu rosto, e saiu correndo dali. Quando me dei conta, toda à volta estavam curvando sua atenção para nós dois, alguns até tirando foto, ou filmando.
Paguei o lanche, e sai dali. Naquela hora queria virar uma formiga, e morrer com uma pisada em falso. Peguei um ônibus, e com muita luta, cheguei em casa.
Depois me lembrei que Alice seria capaz de me denunciar por falsificação ideológica. Entrei em todos os meus perfis, e exclui todas as contas. Todo o meu universo rogeriano tinha sido destruído. Voltei a ser Álvaro, o solitário, único filho de pais separados, sem amigos, e sem nada. Eu só tinha Alice. E ela não era mais minha.
Depois de um tempo, criei uma nova conta, no meu nome, com a minha foto, que não era atrativa como a do meu primo, e depois instintivamente, eu mandei uma solicitação de amizade a ela. Não aceitou. Tentei infinitas vezes. E tento até hoje, quem sabe um dia ela realmente não me aceita como seu homem e tudo volta a ser o que era antes?
Estou esperando.

Ilustração: Eduardo Souza - Twitter: @meus_planos